Da qual me incluo, porque num domingo de sol estranho e inevitável, podia estar na piscina, com Clarinha, levantando lençóis d’água, comendo camarão da espanha, criando ondas tímidas com as palmas de suas mãos, vivendo o júbilo de uma presença.
Desde que as regras deste mundo cessaram para você, e que agora de nada valem também a mim, dei por conta das coisas que chovem sem água, que gritam sem esperança, que desaparecem, mas com destino mais do que conhecido.
Porque do futuro se traçam planos intermináveis, e de fato essas coisas são do futuro. Deixá-las no plano do abstrato, tal qual é agora a sua fotografia, com você, num plano iluminando a tudo, e o fundo, um nebuloso e feliz dia de domingo.
Porque, num domingo de sol descabido e interminável reparo eu nas costas fluentes que me levariam ao paraíso de sabrina? Mesmo após ela ter me deixado, pois segundo suas consequências, eu lhe trazia péssimas lembranças. Por isso vigio constantemente meus passos, a fim de que não esbarre em nenhuma delas.
Mas hoje, domingo de sol revoltante, caminho na insegurança de meu voto. Eleições municipais. Pelo sétimo ano de minha vida posso escolher alguém em quem depositar uma nova esperança. Tá certo que é domingo, de soçobrar em gélidas camadas de nostalgia, mas o sol não me deixa pensar. Por um minuto, atordoado, penso em voltar pra casa. Enquanto isso vou quase desmoronando na piscina de papéis no chão, com santinhos de todos os tipos, os que lhe fornecem reencarnações seguras, casas populares na praia com colchão pillow top, os com sorrisos decorados, os com sorriso sardônico, deus me livre de tantas fisionomias mortais.
Mais mortal que meu leve desconcerto, esses fantasmas vão me deixando cada vez mais confuso, onde não sei o começo meio fim do que vou falar pra Clarinha quando chegar em casa, pai o que você foi fazer, filhinha fui obrigado a fazer uma coisa contra minha vontade, mas aí penso ela está morta, não sei o que fazer, não sei o que pensar, o que me leva a crer que eu é que estou morto, mergulhado nessas trevas.
Pois bem, vamos falar de coisas boas então. Soube que sua mãe vai se casar novamente, tenho boas perspectivas sobre isso. Temos que pensar no seu vestido.
Desde o dia que ela me falou que seria num domingo, que por acaso é hoje, e não é por isso que estou assim. Não é pelas escolhas que temos a disposição serem as mais pobres, hoje o sol está realmente muito forte, muito mesmo.
Pêssego com morango, não era esse seu sorvete favorito? Daria um braço por uma manhã ensolarada assim. Seu pai não tem mais idade pra tomar sorvete sozinho na praça, ainda mais depois de uma eleição. O que você iria pensar de mim? Culpado por continuar a manter este mundo inabitável. Não sei por que não vou lá e arrebento aquelas urnas, faço votos de bom cristão, ou pulo do décimo terceiro andar, que foi onde sua mãe me tirou na primeira tentativa.
Pois é, hoje ela não iria nem tomar nota deste que vos fala, pois o endereço dela é a igreja das causas e graças impossíveis, o Casamento.
Sabe-se lá o que ela pensa, se vai ter um novo filho, se vai me pagar pensão por ficar levantando questões impossíveis de se responder no jornal toda manhã. Até que hoje estou de folga, posso vir aqui encher a cara de pensamentos mórbidos, não sei se por causa dessas entidades que me assustam, que me fazem torcer para um fim rápido, e pode ser doloroso, mas que seja rápido. O que eles me forçam a fazer é de tamanha magnitude, que como poderia escolher entre dois candidatos de igual pavor? Saí como se algo faltasse em minha carteira. Não, não perdi nada, só minha dignidade, minha consciência, que vã vai vagando e vadiando de lembrança em lembrança até não sobrar nada, não sobrar nem aquele teco de pão que você me ofereceu no jantar de sua despedida, papai pega um pedacinho, tô sem fome. Eu também minha querida, estou sem um toicinho de fome. Mas daria tudo por aquele pedaço.
Amanhã preciso me atirar do primeiro viaduto que passar com meu carro rumo a meu último emprego. Não sei o que meu chefe pensa de mim, mas boa coisa não deve ser, tenho de ser uma boa persona, só isso. Posso fazer o mesmo que esses candidatos a postos que por mais públicos que sejam, são os mais escondidos do universo. Mais do que a partícula elementar, descoberta há pouco pelos físicos: Bóson de Higgs, a partícula de Deus. Talvez ela possa nos salvar, nos redimir por essa má conscienciosidade. Talvez ela nos dê a democracia da nova criação. Que possamos nos criar a cada dia, como novos personagens de um filme antipático e mal escrito.
Papai me pega no colo, quero ir dormir. Tá minha filha, boa noite. Papai vai ficar velando seu sono. Um beijo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário