20 de março de 2012

Dona Carolina



Dona Carolina, tem coisas que o amor indica.
Dona Carolina, você deveria ter feito um esforço.
Quantos corpos autofágicos você teve de encontrar?
Sua filha desvairada ainda anda por aí.
Se eu tivesse sono o suficiente, quantos furos drásticos eu teria evitado em te fazer?
Na qualidade de ex-médico e amante, quantas vezes veio a matar-me com a velocidade de um sem-dó?
Quantas vezes veio a liquidar-me em meio ao falsear de cócegas a brotar de seu interior?
Seu primeiro filho tomou suas roupas pela mão e foi brincar de prostituta pelo universo...
Seu segundo teve a descoragem de nem dizer adeus antes de morrer de peste pneumônica.
Não me lembro do terceiro, que nasceu na infância da minha recém-adquirida (e renovada) solidão.
Se eu tivesse tido sono o suficiente, quantos matos perdidos que tu entraste, eu teria me impedido de ver?
Sobraram seis, cinco, quatro ou três novos solitários que você criou.
Deu de mamar, amacetou-os com seu peso ordinário, deixando-os à deriva de seus próprios pensamentos.
Muita coisa pende ainda de minha cabeça ao seu poço submerso.
Dona Carolina, tem coisas que o amor indica.
Dona Carolina, se tivesse sono suficiente, mesmo assim,
nunca esqueceria de te dizer que agora sou só sua dor.

2 comentários:

Renan A. Pereira disse...

Belíssimo meu amigo Caio! Grande abraço!

Renan A. Pereira.

Caio disse...

valeu dom!