12 de junho de 2011

A Bagagem




A iluminação daquela sala, um local de excelência, mas uma clínica médica como todas as outras, urdida de espera, tinha luzes dispostas em posições que variavam de perpendiculares a paralelas, redondas a triangulares, ângulos dos mais diversos e harmônicos, de efeitos perfeitamente pensados e planejados. Exterioridade etérea, quimera de limpeza. As luzes do ambiente iluminavam os curtos instantes antes das horas não planejadas, escuras, como impressões que antecipam o vazio dos ambientes sem portas janelas limites vale dizer que toda essa aparência combinada indicava que qualquer mazela humana poderia ser curada naquele breve ponto de espera para uma melhor, seja ela qual fosse.


Num apartado dia, de muitos ou poucos que ainda se sucederiam na vida daquele menino, as pessoas – testemunhas do vácuo cotidiano – estavam comumente sentadas em suas cadeiras bem distribuídas. Tantas pilhas de revistas postas ali, eram como chamarizes de pinturas de vidas felizes, também apartadas da realidade. Revistas com casas, caras preciosas, raras e alegres, como se não fossem costuradas, quase que produzidas para disfarçar os nós que a realidade ansiosamente aguardava para mostrar.


Resultados de exames são realmente esperados? Nestas horas, é melhor imaginar estetoscópios com asas, bisturis andantes, jalecos espaciais, dar a volta ao mundo e vir de novo.


O campo onde se daria o veredicto médico àquele aspirante a rapaz seria naquele consultório miúdo, minúsculo, como os olhos insensíveis do médico juiz.


Havia um dano razoável a se refletir ao sair daquela salica: Um mundo que se tornaria pequeno, mundo arrancado de um garoto de apenas sete anos.


Se temos a força de antecipar os fatos, façamos força para entender os possíveis desejos dele diante da perturbação a ser anunciada pelo destino. O menino sempre teve consigo a ambição de não levar nenhuma bagagem para uma viagem.


Viajemos para trás então:

Ele teve exemplos clássicos de partidas que usurpam o sentido das coisas.
A falibilidade humana se mostrara cedo na família.

Quando o mundo comunicava uma fila de prazeres e janelas de horizontes felizes, seu irmão mais velho morreu de uma morte comum, banal, que sorteia antecipada e casualmente alguns seres.
Tornara-se um pequeno adulto de uma partícula de hora a outra.
Sabe-se que dons tem os sensíveis… Dizem que enxergam o que os outros não vêem, ou que falta-lhes a capa vermelha para disfarçar os chifres do touro que sempre nos rodeia.
Seu fabuloso irmão, um pequeno homem de andar fácil, desembaraçado, vivendo como se o mundo passasse por um asfalto rolante sob ele, de repente foi chutado pelos astros.
Apesar de novo para o sucesso, seu irmão conquistou glórias por seu carisma na TV. Começou com propagandas, depois aparições em programas de auditório, e mais tarde em séries juvenis.
A família, por vezes o acompanhava. Eram peregrinações por estúdios e rádios de cidades aparentemente vizinhas.
O que soma a essas circunstâncias é que ele, o menino, cada vez mais menininho conforme seu irmão ia crescendo, puro em seu sentimento de mundo convidativo e amplo, não tinha a capacidade de apurar e filtrar os fatos. Via tudo que seu irmão ganhava, todos os presentes que carregava. Tudo aquilo o seduzia, mas mais sedutora que a vida, anda a morte a nos acenar. O silêncio e a dor são melhor conduzidos quando estão disfarçadamente invisíveis.
Começou então a fabricar ideias das mais superlativas. Paz na Terra, Infernos nos Céus. O júbilo se dá aqui, agora, não em outro lugar, não mais. Mas aquilo que se julga bom, arde na mão por sua periculosidade transitória.
Começou a lutar contra sua adesividade ao mundo.
Superar todas aquelas lembranças antes gostosas para ele – como as guloseimas-sem-fim de sua avó – eram o ápice de seu desejo. Não era o irmão a sua falta, mas aquela coisa a que se dá o nome de esperança, que em certa época de nossas vidas existe sem percebermos ou suspeitarmos.
Passou então a andar nu pela casa, plantou sua árvore, queimou seus livros e cadernos de futuras escolas, assassinou a tiros de chumbinho suas “filhas” (as grandes formigas raimundas que criava no quintal), afundou seu time de futebol de botão no campo enlameado do bairro, rompeu com a televisão, e juntou toda sua coleção de tampinhas de coca cola de todas as épocas e arremessou-as no riacho mais próximo, pois caso o rio, próximo não fosse, o desgaste emocional de carregar todas aquelas tralhas consigo seria demasiado.
Havia questões ali, que além de pontos de interrogação de uma subjetividade, eram vontades incompletas de se criar pontos de exclamação.

Passado todo esse tempo, algo havia crescido dentro dele, evidentemente não era ele. Uma espécie de tumor de humor negro dentro do coração. Naquele marcante dia no consultório, a notícia amplificada na voz grave do doutor era clara:

“Ponha o dedo mindinho na ponta do peito. Sinta o vagar de seu coração.”
“Ele parece oco, doutor”
“É grave, é bom planejar somente três aniversários.”

Foram sete anos para se formar aquela vasta área, que podemos desenhá-la mentalmente num perímetro interno. Lá estava seu órgão antes pulsante, agora não mais que um leve tic-tac.
Também foram estes sete tempos que ajudaram a desgastá-lo e concluir uma má formação, que pode parecer congênita, não há mais seres como antes… É essa coisa que vem e faz crianças virarem idosos, velhos virarem crianças, crianças se tornarem inválidos.
Subitamente, todas suas lembranças de suas andanças com seu irmão voltaram. Eram memórias absurdamente felizes, insanamente vorazes, anormalmente tenazes, a lhe dizer que nada fora ainda renunciado.
Como livrar-se de todo aquele ácido emocional? Um pranto oculto estava diluído no seu sangue, não iria ser tão fácil assim se despedir das formas, das sensações e das vilãs boas memórias, dos lugares, dos fatos, dos futuros.
Mais do que nunca, era absolutamente necessário ir embora, não gostar das partituras e apostilagens da vida. Não dá pra cabecear no infinito.
Passaram-se dois anos. Iguais em tamanho, superiores em atitude.
Além de satirizar os relógios que andam pra frente, mostrar a língua para os mais velhos, e cutucar o bem saber dos espertos, o franzino, imaginativo, desgostoso do futuro, apostou na ideia do bem fazer e do ajudar os outros, já que não podia mais se ajudar. Montou uma barraca em frente à casa e vendia suas coisas a assovio. Com o dinheiro ganho, buscava ajudar a todos a quem achasse ter direito neste mundo em declínio.
Mas nada parecia ter a possibilidade de mudar sua história.

Foi então que teve um sonho. Segundo ele, estava em frente ao espelho, de cabelo arrepiado, vendo refletido: PESSOAS INCONDICIONAIS.
A partir dali, tudo mudou. Para pegar atestado de loucura é só aplicar à realidade um pequeno status de desatenção.

Eram cinco refeições pela manhã, cinco à tarde, e cinco à noite. E em determinado ponto cardeal do dia, tinha de pôr tudo pra fora.

Não era mais suficiente ser incondicional aos outros. "Trata-se de revirar-me do avesso para vencer a doença". Começou a então regurgitar todas suas células. Ele sabia por aulas mal dadas na escola que as células se regeneram, e que o corpo praticamente troca toda sua vestimenta celular por várias vezes durante a vida. Então era só acelerar o processo. Osteoblastos, células epiteliais, adiposas (já eram muitas para a idade dele), coronárias, nervosas, e musculares, pois haja força pra bancar todo esse processo. Renová-las era sua meta.
Começou por criar um espaço só seu: O vomitório.
Era um tapa na loucura normal. Durou não mais que uma semana esse acesso.

No terceiro ano, último para ele segundo a predição médica, sentiu ter achado a fórmula, parecia ter despistado a morte.
Uma mistura de devaneio meditativo, acrescentado a um leve choque com ondas magnéticas que “tomava” num médico-de-esquina, fizeram seu espírito parecer mais leve.

Talvez conseguisse espantar seus desejos, memórias, enfim, toda essa bobagem que carregamos contra a nossa vontade.
Não era só para seu problema coronário que não havia remédio. Era como se vivesse entre dois espelhos, de imagens não falsas, mas enganadoras e ilusórias;



Um espelho mostrava o semblante da saudade, e o outro o infinito sem futuro.
“Aliás, quem disse que o infinito tem coração?” – Perguntou-se ele.

Ele sabia que no fundo, morrer poderia ser uma experiência enlouquecedora, muito mais fantasmagórica e angustiante que seus belos achaques diários extravagantes.

Se obra das moléculas do destino ou permissão de um herói elevado a Deus tocando atabaque no céu, sua mãe veio com uma inesperada notícia:
“Venha ver, filho, é um presente”.
Imagino que vocês imaginem o que ele imaginou…
Traduzindo: Slow motion da frustração. Sua mãe trouxe-lhe um presente que de grego não tinha nada, acho que veio lá de Bagdá, tão distante era aquela peça medieval: Um dos primeiros troféus que seu irmão tinha ganhado na sua caminhada à glória juvenil. E quem havia colocado aquela ordem de felicidade na mão do feliz irmão naquela época fora justamente ele, este menino que vos pede a licença para viver mais um pouquinho aqui. E esta era uma das suas lembranças mais doídas, justamente por ela ter sido uma das mais felizes que já experienciou.

No dia seguinte, assim como fazia todos os dias de sua honrosa vida, acordou cedo.

Pegou a mochila e a guardou bem perto do peito. Não iria à escola…

Era cedo, mas cedo é um pouco tarde para quem não quer levar nenhuma bagagem para a viagem.



Caio Garrido



2 comentários:

Fy disse...

Para pegar atestado de loucura é só aplicar à realidade um pequeno status de desatenção.


. . . cedo é um pouco tarde para quem não quer levar nenhuma bagagem para a viagem.





Lindo Caio!

bj
Fy

Caio disse...

bj, fy